O problema teológico-político depois da Dei Verbum

Razão e Fé na Interpretação das Escrituras — o caso Spinoza

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DOI:

https://doi.org/10.46859/PUCRio.Acad.ReBiblica.2596-2922.2025v6n12a01

Palavras-chave:

Problema teológico-político, Spinoza, Dei Verbum, Secularização

Resumo

O problema teológico-político, tal como ele se consolida no século XVII, é abordado neste artigo a partir do confronto entre a exegese bíblica racional de Baruch Spinoza no Tratado Teológico-Político e a doutrina católica da inspiração bíblica reafirmada pela Constituição Dogmática Dei Verbum (1965). Examina-se, primeiramente, como Spinoza redefiniu a interpretação das Escrituras, negando sua inspiração sobrenatural e propondo um método histórico-filológico que visava a libertar a política do domínio da teologia, garantindo a liberdade de consciência e de expressão. Em seguida, apresenta-se a resposta da tradição católica, que, ao longo do século XX, sobretudo com a Divino Afflante Spiritu e a Dei Verbum, acolheu os métodos críticos modernos sem diminuir a convicção da inspiração divina e da dimensão salvífica das Escrituras. Por fim, com base na leitura de Bernard Bourdin e outros, argumenta-se que o problema teológico-político não se reduz à separação jurídica entre Igreja e Estado, mas exprime a tensão estrutural e persistente entre a tradição cristã e a racionalidade secular moderna. O estudo mostra, assim, que a articulação entre razão e fé, política e religião, permanece um desafio fundamental tanto para a compreensão histórica quanto para os debates contemporâneos sobre democracia e secularização.

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Publicado

2025-12-30